O que acontece quando fazemos uma peregrinação sozinhos

Uma peregrinação nos convida a fazer algo que a maioria das pessoas não consegue na vida cotidiana: uma pausa para ficar a sós e olhar para dentro. Sobretudo no Caminho de São Francisco, que não é tão popular, o peregrino caminha sozinho a maior parte do tempo.

Mesmo que vá acompanhado ou com um grupo, o caminho funciona como um retiro. Não é como uma viagem tradicional voltada apenas a turismo, lazer ou distração. 

A peregrinação tem a simbologia da travessia, do sair de um lugar para chegar a outro, do caminhar, do levar pouca coisa na mochila e sentir o peso do que carregamos nas costas. É uma analogia perfeita para a vida.  

O peregrino sai de seu ambiente para viver uma viagem paralela por dias, semanas ou até mais de um mês. Nesse período, necessariamente confrontará dores físicas e emocionais. 

Às vezes, questões profundas vêm à tona. É comum entrarmos em contato com a nossa “sombra”: a parte em nós que negamos, composta por medos, traumas, dores profundas, inseguranças. 

Eu mesma já me percebi chorando copiosamente sozinha no meio das montanhas por emoções que emergiram do caminhar a sós. Nesse processo, temos insights poderosíssimos sobre quem somos e o que é importante para nós. 

Quando realizado com entrega e de coração aberto, o caminho se revela um grande veículo de transformação. Percebemos quantos pesos desnecessários carregamos. Livre deles, nos conectamos com a nossa melhor parte: amorosa, inteira e leve. 

Se formos atentos, percebemos que, a todo instante, há apenas uma companhia que jamais nos abandonará: a nossa própria. Aonde quer que formos, iremos junto e precisamos ter uma boa relação com quem chamamos de “eu”.

Somente quando estamos bem com a nossa própria companhia é que damos o nosso melhor aos demais. São Francisco, por exemplo, começou sua jornada sozinho e pessoas começaram a caminhar ao seu lado. Como diz sua famosa oração (que sequer foi escrita por ele): que possamos amar mais do que ser amados, porque é dando que se recebe. 

Se durante a peregrinação tivermos apenas um leve insight sobre essa grande verdade, caminhar sozinho ou acompanhado não faz diferença, porque estaremos sempre em boa companhia.

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